quinta-feira, 26 de março de 2009

Pouca terra, pouca gente, poucos votos...




Em vários países da Europa, com muito melhor nível de vida do que o nosso, sendo que o melhor “nível de vida” é composto de, sim, mais algum dinheiro, mas principalmente de mais cultura, menos corrupção, melhor ensino, melhor saúde, melhores condições de trabalho, melhor ambiente, melhor paisagem urbana e rural e, quase sempre, muito mais comboios. Não os grandes gigantes trans-siberianos ou trans-americanos. Não! São centenas de linhas, por vezes centenárias, onde circulam sem descanso pequenos comboios que cobrem o território, como uma rede de veias por onde corre a vitalidade das pessoas, dos seus bens e dos seus negócios, ligando as pequenas aldeias às pequenas e grandes cidades. Assim tornam dispensável e absurda a circulação da maior parte dos grandes camiões de mercadorias e muitos dos automóveis particulares, podendo por isso a rede de estradas ser constituída por estradas pequenas e médias, adaptadas ao meio, agradáveis à vista e muitíssimo mais úteis do que as auto-estradas.

Não em Portugal! No nosso país, como o “nível de progresso” é medido em função dos lucros das cimenteiras e empreiteiros, que juntamente com alguns bancos e mais umas eminências pardas do grande capital, são quem governa realmente, estamos condenados ao tudo ou nada. Ou existem auto-estradas, ou caminhos de cabras. Ou se faz nascer o TGV, ou se deixa morrer tudo o que é pequena linha ferroviária.

Agora foi a vez das linhas (centenárias) do Corgo e Tâmega. Que duas linhas com tal idade e beneficiando da “manutenção” típica dos nossos equipamentos públicos, tenham que sofrer obras de beneficiação, é natural. Que para fazer essas obras em segurança, as linhas devem ser temporariamente encerradas, todos o sabemos.

Então o que é que não é natural? O facto, recorrente nestas situações, de os utentes, razão última para a existência de comboios, saberem do facto... no dia do encerramento, ou terem direito a saber de véspera, no caso de serem dirigentes locais.

Durante muitos meses, as populações vão ficar sujeitas aos sempre mal “enjorcados” transportes alternativos, supostamente provisórios, mas que muitos "gatos escaldados" já desconfiam definitivos. Sobre as negociatas que estão quase sempre escondidas por detrás destes “transportes alternativos", nem quero falar.

Como dizia, o que não só não é natural, como é chocante, é a indiferença com que as pessoas são tratadas pelo poder. Quando se dá o caso de, como estas, viverem em aldeias que eleitoralmente não “valem” nada, então essa indiferença passa rapidamente a um profundo desprezo.

12 comentários:

Maria disse...

Pois, fosse a aldeia uma cidade grande e verias autocarros e magalhufas para as pessoas se entreterem durante o trajecto...

Abreijos

salvoconduto disse...

Ninguém me tira da cabeça que este encerramento temporário é apenas o ensaio para o encerramento definitivo.

Ainda mais encanitado fico por ter feito imensas viagens na linha do Corgo de Vila Real até à Régua e depois daí, na linha do Douro até aqui ao Porto, em comboios cuja máquina era semelhante à da foto, excelente por sinal.

Daniel disse...

Samuel, e que eu que pensva que ias falar do TGV! É que, se fosse, eu tinha uma história intressante para contar. A de um presidente de Junta que, mesmo ao meu lado, pediu ao secretário das Obras Públicas (ou lá como se chamava na altura a respectiva secretaria) que ele lhe fizesse um salão. Coisa pequena, teve o cuidado de explicar. Aí para umas quatrocentos pessoas, nada mais. (A freguesia tinha apenas trezentos e tal habitantes...)

Orlando Gonçalves disse...

E aos poucos lá vai ficando o interior cada vez mais desertificado. Mas para o DGV já há dinheiro... prioridades dos nossos (des)governantes. E quem haveria de dizer que aquele Mário Lino alguma vez militou no PCP.

jrd disse...

Quantos das "carreiras privadas" já estão a salivar com o negócio?

José Cândido disse...

Foi de mansinho que fomos sendo informados pela tutela respectiva que algumas linhas de comboio em Portugal, numa reedição de 1990, poderiam fechar se a estas se associasse comprovadamente uma falta de rentabilidade. Era o lobo a vestir a pele de cordeiro: esquecendo que a mobilidade é um direito básico das populações, o governo assumia um papel de defensor da poupança dos escassos recursos nacionais.
Não se ouviram então vozes muito alto, foi antes um estertor, um restolho de insatisfação que não permitiu, de uma vez, e à moda de 1990, encerrar essas linhas. Falava-se na altura no ramal da Figueira, no ramal de Cáceres. Mas havia quem apostasse que esses ramais eram apontados para desviar atenções: o interesse mesmo era matar de vez a via estreita em Portugal. Em tempos recuados, quer por razões técnicas, quer por razões económicas, algumas linhas de caminho-de-ferro nasciam com a bitola (distância entre linhas) métrica (e.g. 1 metro), em vez dos 1,668 da bitola (dita) ibérica, a «normal».
Entroncando a Norte da Linha do Douro (esta em bitola ibérica), temos a linha do Tâmega (Livração – Arco de Baúlhe), a linha do Corgo (Régua – Chaves), a Linha do Tua (Tua – Bragança) e a Linha do Sabor (Pocinho – Miranda Duas Igrejas). Destas já só tinham serviço de passageiros, e amputadas, as duas primeiras: a do Sabor morria em 1986 para passageiros, e a do Tua espera a sua reabilitação «para Março», porque «não é para fechar», «tem objectivos próprios», segundo o que se ouviu do Ministro das Obras Públicas.
Mesmo amputadas, mesmo em mau-estado, com serviço de passageiros em nada consentâneo com as necessidades dos mesmos, estas linhas foram sobrevivendo. Servindo populações que não têm alternativa de transporte, encravadas que estão em remotos locais. Até ontem. Altura em que «sem aviso prévio», a gestora da infraestrutura ferroviária, REFER, fechou por alegada falta de segurança as linhas ainda em funcionamento.
Até era de aplaudir esta opção: uma empresa que reconhece a sua ineficácia, e prefere perder a imagem a vidas humanas até não parece tão mal, mas o que se questiona (o mesmo tinha acontecido já com o ramal da Figueira pelas mesmas razões de falta de segurança), é porque é que a opção é «encerrarem temporariamente», quando afinal a sua missão seria de evitar que chegasse a tão desesperado estado de degradação? Então e se todas as entidades responsáveis por serviços ligados a mobilidade de pessoas decidissem fechar? As estradas, elevadores, linhas de metro, eléctricos, portos de mar e pistas de aviação por alegada «falta de segurança»?
Apetece dizer que à falta de um programa nacional de barragens, inventado em cima do joelho para conseguir-se o fecho da linha do Tua (que resistirá pela sua importância e pela importância que pessoas e organizações lhe reconhecem) foi preciso arranjar outra técnica: a do fecho por «falta de segurança»! É que mesmo sem um serviço minimamente capaz, sem qualquer publicidade, as linhas estreitas do Douro chamam milhares de pessoas (turistas) e servem populações locais que de outro modo se veriam induzidas a partir para um litoral descaracterizado, contribuindo para um interior cada vez mais desertificado, numa espiral sem fim.
Num país em que o Ministério do Ambiente não se insurge contra atentados ao património natural, em que o Ministério das Obras Públicas continua preocupado em fazer mais auto estradas para ligar Porto a Lisboa (ou deverá dizer se ao contrário?) e nada interessado em reabilitar o caminho de ferro como um meio ecológico, sustentável, seguro e confortável de transporte de pessoas e bens (contrariando o pensar europeu) pergunta se:
Qual a estratégia para a ferrovia em Portugal?
Quantos quilómetros de via-férrea foram construídos ou reabilitados nos últimos quatro anos?
E quantos foram fechados, mesmo que «temporariamente»?
Depois de se ter assistido nos últimos anos a um reforço da insistência da REFER em vender canais ferroviários sem utilização para denominadas ecopistas que ainda precisam provar o seu interesse para as populações por elas servidas, e de ser preciso a união de 28 Concelhos para promover a ligação Pocinho a Barca D’Alva na Linha do Douro (30 km encerrados em 1988 que custarão o mesmo que 2 km de auto estrada!), estamos entendidos quanto ao interesse que o comboio produz nesta geração de dirigentes «modernos e ambientalistas».
Não tarda, a nossa rede ferroviária será um conjunto de recordações «fechadas para obras», com reabertura não garantida!
É pena!

duarte disse...

muita viagem fiz na linha do tua...
e quantas fotografias tirei...
agora estes bandalhos, querem a todo custo acabar com esta e muitas outras!
falta de segurança? hà muitas formas de criar insegurança.
De lembrar que a linha do tua serve o complexo do Cachão, e que , este último só não tem ganhado a importancia devida , graças a um abandono parcial(ou quase total) das obras de requalificação da linha.
abraço deste vale que já escoou muita da sua mercadoria via Cachão.

Fernando Samuel disse...

Esses coitados nem em ano de eleições têm direito a um rebuçado...

Um abraço.

Antuã disse...

Esta gentalha do governo, dos vários conselhos administrativos das várias CP e da REFER não tem vergonha nenhuma em pertencer a uma fafia execrável.

Avelaneira Florida disse...

Amigo Samuel,

ando a "fumegar" em papéis e o tempo "fugit"...
mas dei aqui um saltinho e vi que estamos num espaço completamente "decorado" a preceito!!!!
Vou voltar com tempo para apreciar devidamente!!!!
Entretanto, deixo saudações!!!!

Camolas disse...

Na minha terra diz-se "enjarocado".
Bela análise , a mão terra trata-lhes da saúde, amanda-lhes umas crises cardíacas e acaba com a doença da ganância e do individualismo, lei da acção reacção.
Abraços

Inês Teixeira disse...

Que oportuno encerrar as duas linhas por razões de segurança... Já em Maio de 2006 o Sr. Eng.Mário Lino assumia que as linhas não rentáveis teriam de ser encerradas; encontrou agora um bom motivo para iniciar subtilmente a "purga" às linhas do Corgo e Tâmega. Quanto à linha do Tua, a sentença já foi lida. É uma questão de tempo. Não sem luta, é certo!