segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Indiferença




Já nos vamos habituando, ainda que não conformados, à forma de tratamento que os jornais, televisões e comentadores vários, vêm dando a casos como a recente invasão violenta de um Centro de Trabalho do PCP, por gorilas de uma empresa que não gostou de um comunicado distribuído aos trabalhadores à porta das suas instalações, a condenação no Tribunal de Viseu, de dois jovens, por escreverem num viaduto da cidade, um anúncio ao seu congresso, pressões sobre os professores sindicalistas, com ameaças de prejuízo para as suas carreiras, perseguição generalizada a dirigentes sindicais, o reaparecimento em força do execrável exército dos “mais papistas que o papa”, sempre dispostos a defender violentamente os chefes, denunciando quem quer que seja que lhes pareça “do contra”, a constante ocultação da maior parte das realizações e posições daqueles que realmente denunciam a mentira em que assenta este sistema político, o clima de constante terror imposto a milhares e milhares de trabalhadores precários, que têm a sua sobrevivência sempre nas mãos do patrão... e incontáveis outras situações que nem é preciso enumerar.

Os órgãos de comunicação social da classe dominante, fazem-no por militância, para servir os donos. O efeito desejado é cultivar a indiferença. O espírito do “isto sempre houve e haverá”, a ideia de que não existem propostas alternativas. Uma indiferença surda e cega, apenas interrompida aqui ou ali, por campanhas “solidárias” mais ou menos beatas, que nunca denunciam nem atacam as causas da miséria que pretendem combater.

A indiferença é um flagelo. Nunca saberei exactamente onde se situa a fronteira entre a indiferença provocada pela ignorância e a indiferença “criminosa” dos que têm sempre o célebre “eu quero é o meu” como credo.

Desgraçadamente para uns e outros, qualquer que seja o tipo de indiferença, ela é sempre suicidária. Quando passar pela nossa rua a cavalgada dos assassinos da liberdade, ao contrário da estória bíblica da matança dos primogénitos, não haverá sangue de cordeiro aspergido nas ombreiras das portas, que os salve.

Essa cavalgada tem que ser detida. É preciso que os indiferentes sejam acordados... o que me traz sempre de regresso a este terrível texto de Brecht:

Primeiro levaram os comunistas,

Mas eu não me importei

Porque não era nada comigo.
Em seguida levaram alguns operários,

Mas a mim não me afectou

Porque eu não sou operário.
Depois prenderam os sindicalistas,

Mas eu não me incomodei

Porque nunca fui sindicalista.
Logo a seguir chegou a vez

De alguns padres, mas como

Nunca fui religioso, também não liguei.
Agora levaram-me a mim

E quando percebi,

Já era tarde.

(Bertolt Brecht)


Adenda: Embora sabendo que existem discussões sobre a verdadeira autoria deste texto, normalmente atribuído a Brecht, decidi publicá-lo, pois o texto em si é que me interessa, dando-o como autor, como faz a maioria das pessoas que o citam.
Um leitor do blog (que não gosta de andar pelas primeiras páginas) já me enviou por mail duas pistas sobre autorias “alternativas”, a saber, o poeta russo Maiakovski e (ainda mais interessante) o Pastor Niemöller, ele próprio vítima dos Nazis.
Mesmo o texto do poema tem mais do que uma versão.
Quem achar que pode contribuir com tijolos para esta construção… não se coíba de o fazer mesmo aqui, na caixa de comentários. A BlueVelvet já tinha dado “um toque”, quando se referiu ao Maiakovski…

Abreijos colectivos!

21 comentários:

Maria disse...

Este texto de Brecht faz-me sempre um arrepio quando o leio.
É assim. Como dizes.
E a indiferença é, como dizes, suicidiária... quanto tempo falta para se tomar consciência disto?

Hoje publiquei Ary. Mas a "onda" é a mesma...

Abreijos

salvoconduto disse...

Os da imprensa escrita tanto fazem para "agradar" que um dia lhes vão ver o olho e como os outros terão que se contentar com o cú, da rua. Vai ser um ano bonito vai.

Os inocentes úteis fazem o seu papel até chegar a sua vez...

Abraço.

BlueVelvet disse...

Fiz há tempos um post com este poema acompanhado do de Maiakovsky:
Na primeira noite
eles se aproximam
E colhem uma flor
De nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite,
já não se escondem :
Pisam as flores,
Matam nosso cão,
E não dizemos nada.
Até que um dia,
O mais frágil deles,
Entra sozinho em nossa casa,
Rouba-nos a lua e,
Conhecendo nosso medo,
Arranca-nos a voz
da garganta.
E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.

Convém ir lembrando de vez em quando.
Abreijinhos

Cris disse...

Sam
A gente se acostuma...mais não devia(Marina Colassanti)
Um grande beijo....

Camolas disse...

Está todo o mundo anestesiado com o materialismo. Vale tudo menos tirar olhos.

"ninguém faz revoluções de barriga cheia"
(A ilha dos condenados)

Caim disse...

A imprensa deveria se chamar "emprensa", por seu caráter mais empresarial do que informativo.

Ana Camarra disse...

Samuel

Uso amiude esse poema de Brecht.
Infelizmente actualissimo, é como dizes a indeferença é uma coisa feia, ainda por cima voluntária, não ver, não ouvir, não falar porque é mais facil...

beijos

Adriana disse...

Pena que a gente se acostuma,,vira até vergonha!

boa semana

Anónimo disse...

"Os órgãos de comunicação social da classe dominante, fazem-no por militância, para servir os donos. O efeito desejado é cultivar a indiferença. O espírito do “isto sempre houve e haverá”, a ideia de que não existem propostas alternativas. Uma indiferença surda e cega, apenas interrompida aqui ou ali, por campanhas “solidárias” mais ou menos beatas, que nunca denunciam nem atacam as causas da miséria que pretendem combater."
Era o que mais faltava! Estamos vivos ESTAMOS vivos.
Abraço amigo.
Siga a Roda...
Ricardo Cardoso

o castendo disse...

Uma sugestão de Leitura sobre a adenda:
http://www.history.ucsb.edu/faculty/marcuse/niem.htm
Para além da wikipedia em inglês sobre Niemöller
Mas estou de acordo contigo: o que interessa é o conteúdo do poema

lino disse...

Como diz "o castendo" o que interessa é o poema. O autor mais provável é, de facto, Martin Niemöller, embora não estejam dissipadas todas as dúvidas. Do Bertolt não é. Mai informção aqui:
http://en.wikipedia.org/wiki/First_they_came...

A. Mendes disse...

Caro Samuel
Respondendo ao seu convite aqui vai a minha modesta contribuição.Como diz, o poema tem várias versões, melhor, adaptações. O texto que transcreve, tanto quanto sei, é mais uma. O texto exacto, segundo suponho tradução do Dr. Paulo Quintela (não pude em tempo confirmá-lo, pois ando em arrumações na minha biblioteca,é como segue:

Primeiro levaram os negros
mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram os desempregados
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei

Quanto ao texto-poema escrito pela BlueVelvet, não é de Maiakovski.É de um poeta brasileiro, Eduardo Alves da Costa, e faz parte de um extenso poema com o título "No caminho com Maiakovski". Permito-me corrigir duas palavras. Onde se diz colhem é roubam. Onde se diz lua é luz.O penúltimo verso não consta do original.
Caso alguém esteja interessado no poema completo eu envio. Basta facultarem-me os meios. Cumprimentos

A. Mendes disse...

Caro Samuel,
Tenho tentado, desde 6ª-feira passada, contactá-lo através do E-mail que consta do seu perfil. Não tenho conseguido, pois vem sempre< devolvido com a indicaçpão de erro.Segundo a netcabo pode tratar-se de endereço errado ou caixa de correio cheia. Se não vir incoveniente mantenho o interesse.Caso seja possível agradeço que me faculte o meio de o contactar, o que desde já agradeço. Cumprimentos

Miguel Jeri disse...

Viva

Quando saiu o comunicado de última hora, fui procurar na internet outras versões da notícia. Numa das versões (já não me lembro o site), dizia-nos a notícia que a GNR se apressara a comentar os acontecimentos dizendo que as agressões teriam sido "entre membros do PCP" (e até pode ser visto aqui. Desculpem?

No dia seguinte, já a versão de empresa estava no ar, e a versão absurda da GNR já havia sido substituída: afinal tinham sido os agente da empresa os "agredidos".

Não há dúvida que a comunicação social tem um poder imenso, talvez por isso enviei a notícia via e-mail ou comentando nalguns blogues, numa tentativa de contornar esta situação.

Um outro caso deu-se recentemente com a expulsão do eurodeputado espanhol da Venezuela. Quando ouvi a notícia de que havia sido expulso da venezuela, na rádio, fiquei algo mal impressionado. No entanto, no dia seguinte dei com este texto no Cravo de Abril: o gajo era um observador internacional, supostamente encarregado de fiscalizar a democraticidade do referendo (que por distracção minha me havia escapado) e estava a fazer campanha (da suja) a favor de uma das opções do referendo que se supunha fiscalizar. Dizer que fiquei abismado é pouco.

A equidade da informação, que já não era muita, está de facto a deteriorar-se rapidamente... começam a ver-se rasgos da sem vergonha total.


Enfim, poema: da primeira vez que o vi, na net, foi nesta versão:

Primeiro levaram os comunistas, e eu não protestei, porque eu não era comunista.

Depois, vieram e levaram os judeus, e eu não protestei, porque eu não era judeu.

Depois, vieram e levaram os católicos, e eu nada disse, porque eu era protestante.

Depois, vieram e levaram-me a mim, mas nessa altura já era tarde, pois não restava ninguém para poder protestar e falar a meu favor.


Abraços

Miguel Jeri disse...

Link do post do Cravo de Abril. Recomendo a leitura (e também o seguimento do blog)

samuel disse...

Maria:
Seria bom que não faltasse muito.

Salvoconduto:
É como dizes... há inocentes... e inocentes.

BlueVelvet:
Lembrar exercita a consciência...
Eu sabia que íamos “apanhar” os dois. Eu pelo Brecht, a minha amiga pelo Maiakovski que não é do Maiakovski... ☺ ☺

Cris:
Infelizmente, o ser humano se acostuma a quase tudo.

Camolas:
Algo me diz que este acordar da anestesia não será muito bom.

Caim:
São a voz do dono...

Ana Camarra:
No limite, a indiferença é um crime.

Adriana:
E vergonha grande, feia!

Ricardo Cardoso:
Vivam as excepções, meu amigo!

O Castendo:
Claro que é o conteúdo que interessa... mas, sobretudo a teoria do Pastor Martin Niemöller, está bem colocada na grelha de partida…


Lino:
Ao que parece, realmente.

A.Mendes:
Existem efectivamente várias “versões” que se devem certamente apenas a traduções diferentes, embora umas incluam negros e excluam comunistas, outras ignorem os judeus...
Sobre o tal texto atribuído a Maiakovski, já tinha lido que isso era apenas um “mito urbano” provocado pelo título do texto original.

A.Mendes:
Não sei como possa ajudar nessa questão do mail. O endereço que está lá em cima, no perfil, está certo. É por ele que recebo todo o correio electrónico. Deve estar a acontecer algum erro (que não sei qual seja), já que ainda por cima, sendo uma conta do “gmail”, a caixa de correio não enche, nem com cinco mil mails.
De qualquer maneira, aí vai:

samuelquedas@gmail.com


Abreijos colectivos!

samuel disse...

Miguel Jeri:
É cada vez mais importante estar com os olhos bem abertos... e disposto a ajudar algumas pessoas mais a fazer o mesmo.

Abraço

Fernando Samuel disse...

Seja quem for o seu autor, o texto é notável.
Sempre o «li» atribuído a Brecht, mas jamais o encontrei em qualquer dos vários livros de poemas de Brecht que tenho.

Um abraço

ZERO À ESQUERDA disse...

Gemeinschaft (atribuído a Martin Niemöller)
Als sie die ersten Kommunisten holten, habe ich geschwiegen; denn ich war kein Kommunist. Als sie die ersten Juden holten, habe ich geschwiegen; denn ich war kein Jude. Als sie die ersten Katholiken holten, habe ich geschwiegen; denn ich war kein Katholik. Als sie mich holten, war niemand mehr da, der seine Stimme hätte erheben können.

Será este o original do poema? Talvez.

Eis mais uma versão possível, traduzida agora mesmo, directamente da língua alemã, com pedidos de desculpa ao(s) autore(s) e leitores:

Solidariedade

Quando levaram os comunistas, calei-me. Eu não era comunista.
Quando levaram os judeus, calei-me. Eu não era judeu.
Quando levaram os primeiros católicos, calei-me. Eu não era católico.
Quando me vieram buscar, já não estava lá ninguém, cuja voz por mim se erguesse.

Abraço, Samuel

samuel disse...

Fernando Samuel:
Está decidido! Passa a ser um poema de Brecht... escrito por outra pessoa.

Zero à Esquerda:
Decididamente a coisa converge para o pastor Niemöller. Obrigado pela boa tradução!


Abreijos em estéreo!

Jorge disse...

Ler:
Rebelion. Es Niemöller, no Brecht
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=29882