sábado, 12 de setembro de 2009

Ary dos Santos - Canto Franciscano



Canto Franciscano
(José Carlos Ary dos Santos)

Por onde passaste tu
que não soubeste passar?
Pela sandália do tempo
pelo cílio do luar
pelo cílio do vento
pelo tímpano do mar?
Por onde passaste tu
que não soubeste passar?

Por onde passaste tu
que me ficaste cá dentro
tenaz do fogo divino
irmão pinho ou aloendro?
Por onde passaste tu
que me ficaste cá dentro?

Pois bem: nos campos da fome
ou nos caminhos do frio
se eu encontrasse o teu nome
lançava-te o desafio:
por onde passaste tu
pétala viva dos cerdos
rei das chagas e dos podres
- por onde passaste tu
não passaram as minhas dores!

Nasci da mãe que não tive
do pai que nunca terei
e aquilo que sobrevive
é o irmão que não sei:
uma espécie de fogueira
de corpo que me deslumbra.
Tudo o mais à minha beira
é uma réstia de sombra.
- Por onde passaste tu
com artelhos de penumbra?

Eis-me. Eis-me incendiado
por não saber perdoar.
Meu irmão passa de lado
- Eu sei como hei-de passar.

5 comentários:

Carlos Machado Acabado disse...

Este "maroto" deste Ary tinha umas imagens, de facto, fulgurantes, às vezes, literalmente... 'inquietantes no melhor sentido'---autênticos clarões de puro génio a que, aqui e ali, não terá tido paciência para conferir expressão orgânica integral.
Partilha com o Alexandre O' Neill, por exemplo, uma certa tendência ocasional (e profissional!) para o descontínuo e para o ideograma, para o 'fechamento sémico' demasiado "estratégico" do texto (de onde vai sair, naturalmente, o 'slogan'...) mas tem, de facto, coisas absolutamente cintilantes e definitivas e, de uma maneira geral, quando é bom, é MESMO bom!

...Como é, definitivamente, o caso deste "Canto", aqui, em boa hora e mais do que justamente, reevocado e homenageado.

Maria disse...

A força das palavras na ternura do Zé Carlos... lindo!

Abreijos

utopia das palavras disse...

Ele sabia o caminho...das palavras! Escrevi-as olhando-as nos olhos, com a certerza e a força da sua convicção!
Sabia sempre...por onde passar!

Abraço

Fernando Samuel disse...

Um verso: «eu sei como hei-de passar»...
O Zé Carlos continua a ser menorizado por uma «crítica» que não lhe perdoa ser «O Poeta da Revolução» e, ao mesmo tempo, um grande Poeta.

Um abraço.

samuel disse...

Per tutti:
Ainda bem que gostamos, não é? Grande Ary!


Abreijos!